Pular para o conteúdo principal

manifesto sobre o silêncio e a tradução #divagação

Estudar e viver o feminismo trouxe muitos amores para minha vida. Acima de tudo, trouxe muita reflexão e consciência a respeito do mundo. Uma autora a quem me apeguei recentemente trata-se da irmã outsider Audre Lorde, que escreveu a célebre frase "do que mais me arrependo são dos meus silêncios".

Audre Lorde em cena do documentário ‘Audre Lorde: The Berlin Years 1984 to 1992’. (Fonte: blogueiras feministas)

Nas noites viradas de escrita de dissertação, persegui cantos de traduções e não-traduzíveis textos sobre conceitos, vidas e reflexões. Spivak tem maravilhosas leituras sobre este caso, uma delas é este texto. Ela mesma escreve que não ministra aulas com textos em que não consiga ler o original.

Há algum tempo questionava colegas que se importavam tanto com traduções - que coisa de filósofos! Ainda questiono. Na verdade, acho que, muitas vezes, há casos em que não há necessidade de tanta atenção. Mas, ainda no feminismo, Haraway chamou atenção ao escrever um verbete para um dicionário alemão sobre a palavra "gênero". Ela alerta que antes da tradução - ou mesmo dentro da tradução - existem histórias, vidas, seres (neste caso, uma política sexual da palavra). Gênero pode significar algo em inglês (genre) diferentemente de espanhol (género), alemão (Geschlecht) ou português.

Passei, portanto, a olhar as palavras com outros olhos. Olhos de passarinho. Por falar em passarinho, que venha Manoel Barros, para voltar às divagações do início do texto:

Difícil fotografar o silêncio.
Entretanto tentei. Eu conto:
Madrugada, a minha aldeia estava morta. Não se via ou ouvia um barulho, ninguém passava entre as casas. Eu estava saindo de uma festa.
Eram quase quatro da manhã. Ia o silêncio pela rua carregando um bêbado. Preparei minha máquina.
O silêncio era um carregador?
Estava carregando o bêbado.
Fotografei esse carregador.
Tive outras visões naquela madrugada. Preparei minha máquina de novo. Tinha um perfume de jasmim no beiral do sobrado. Fotografei o perfume. Vi uma lesma pregada na existência mais do que na pedra.
Fotografei a existência dela.
Vi ainda um azul-perdão no olho de um mendigo. Fotografei o perdão. Olhei uma paisagem velha a desabar sobre uma casa. Fotografei o sobre.
Foi difícil fotografar o sobre. Por fim eu enxerguei a nuvem de calça.
Representou pra mim que ela andava na aldeia de braços com maiakoviski – seu criador. Fotografei a nuvem de calça e o poeta. Ninguém outro poeta no mundo faria uma roupa
Mais justa para cobrir sua noiva.
A foto saiu legal.

BARROS, M. Ensaios fotográficos. Rio de Janeiro: Editora Record, 2000.

E às voltas com a questão da tradução:

Tout est traduction, rien n'est traduisible. - Barbara Godard

No fim das contas, tudo é tradução, mas nada é traduzível. Spivak vem aqui contar que iniciamos nossos sistemas de tradução ainda crianças, absorvemos e traduzimos. A forma como contamos as coisas é uma tradução, podem ser histórias, podem ser textos, conceitos ou teses. A nossa tradução das coisas.

E, foi assim, de mansinho, que me veio o feminismo contar (em especial, o feminismo negro): é necessário falar sobre outras histórias, já vivemos demais uma só história - aquela história única. Vamos lá, contar outras histórias. E, ao invés de nos arrepender dos silêncios, reivindicar as falas, as histórias, os conceitos. Vamos fotografar o silêncio que já vivemos e torná-lo verbo.

Pra finalizar, Chimamanda Adichie falando belamente sobre isso.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

discussões da sociologia e psicologia #resumo

No centro destes capítulos estão:

Lazarsfeld (sociologia)
Lewin (psicologia)

Seguindo os ânimos do capítulo anterior, senti que Heims continuou mostrando sua posição política nestes últimos capítulo - sutilmente. Ao iniciar o capítulo 8 com a frase "cybernetic ideas can be applied in the most diverse ideological context" ele anuncia o que está por vir.

Os dois capítulos, assim como os anteriores, são separados por grupos de elite, que geralmente variam com temas focados em dois participantes com outros como satélites.

No primeiro (8), temos um panorama geral das situações políticas nos Estados Unidos, os esforços, já anunciados, de intervenção governamentas dentro da produção acadêmica, levando, em alguns casos, à paralização da atividade acadêmica. Enquanto os encontro Macy não se abriam para as pessoas que pesquisam em torno de soluções para os problemas sociais relacionados ao racismo, ao anticomunismo, entre outros, houve uma discreta migração de pesquisadores que inco…

A revolução vai acontecer na periferia - histórias e experiências do CCS em Vila Isabel

Apresento a vocês o vídeo "Histórias do Centro de Cultura Social - Vila Isabel (RJ)". Esse vídeo é uma edição de entrevistas realizadas para escrever o artigo de final de curso "A revolução vai acontecer na periferia - histórias e experiências do CCS em Vila Isabel", apresentado ao professor Henrique Cukierman, na disciplina de "Tópicos Especiais em Ciência-Tecnologia-Sociedade", do Programa de Pós-Graduação em História das Ciências e Técnicas e Epistemologia.

Não sou profissional em edição ou gravação de vídeos, por isso peço que relevem a qualidade dos cortes e das gravações desfocadas.

As músicas foram baixadas pela internet e estão disponíveis pelos próprios criadores das mesmas:
FAQ (hip hop instrumental mix) - SoUnDWaVeS
Salva a humanidade - Tom Zé

Entrevistas:
Davi Rodrigues
Maurilio Rodrigues
Beatrice Catarine

Observação: a propaganda que aparece no vídeo é enviada pela gravadora do Tom Zé, porque utilizo um trecho de uma de suas músicas. Não monetizo em …

The Cybernetics Group - #resumo

Não foi fácil encontrar imagens de Heims, inclusive, esta foi a única que encontrei. As informações pessoais também vieram de apenas dois websites, que estão linkadas nesta apresentação. De acordo com a KeyWiki, Heims fugiu da Alemanha nazista para os Estados Unidos, onde conheceu sua esposa com a qual teve uma filha, a jornalista Leila McDowell-Head que, apoiada pelo seu pai, fez parte do Partido dos Pantera Negra. Segundo Wikipedia, os Pantera Negra tinha como finalidade original da organização era patrulhar guetos negros para proteger os residentes dos atos de brutalidade da polícia. Posteriormente, os Panteras Negras tornaram-se um grupo revolucionário marxista que defendia o armamento de todos os negros, a isenção dos negros de pagamento de impostos e de todas as sanções da chamada "América Branca", a libertação de todos os negros da cadeia e o pagamento de indenizações aos negros por "séculos de exploração branca". A ala mais radical do movimento defendia a …